Defile é para gente de emocionar
Por Dado Carvalho
Seção: SPFW VERÃO 2011
14.junho.2010
Há um hábito bastante peculiar na hora em que as luzes se apagam antes de cada desfile. Na penumbra, começam a surgir sons da natureza, geralmente vindos do pit dos fotógrafos. Há pessoas com enorme talento para reproduzir ruídos de gatos, gralhas, araras e até galos, peripécia geralmente sucedida de repreensões e 'shhh'. No desfile que começou por volta das 17h30 desta segunda, na hora que apareceu o nome do estilista no telão, após a sessão zoológico, alguém do pit grita uma gíria que está na boca do povo: "Ronaldo!"
O desfile era de Ronaldo Fraga. E sempre durante os desfiles (principalmente os seus), todos ficam quietos. O momento é de emoção.
Cordel | "O que acontece no desfile de Ronaldo é que ele sempre conta uma história", diz Christiane Mesquita, uma das organizadoras do evento de moda Ziguezague. E qual foi a história contada neste? "A de um apaixonado pelas tradições." E ela enumera: os bordados, as texturas. "Que estão se perdendo no mundo moderno", explica.
Êxodo | Terminado o desfile, uma certa aglomeração se forma na boca de cena, para entrar nos bastidores. Quase todo mundo era amigo de Ronaldo. Christiane avista um rapaz e o saúda: "Adorei o trabalho que você fez", e o abraça. "Agora me diz se eu posso com esses mineiros que se mudam para Pernambuco? Dá nisso", brinca. O rapaz é Leo Santana, artista plástico que preparou o desenho do cenário: todo o chão e a parede da boca de cena são compostos de ladrilhos pernambucanos, formando um mosaico de flores gigantescas.
Leo olha para todos os lados com uma certa surpresa. "Quando eu bolei, tinha uma certa imagem na minha cabeça", se emociona. "Não imaginei que ia ficar assim."
Chão de estrelas | Entramos nos bastidores e nos deparamos com modelos limpando as coxas. Durante o desfile, os modelos tinham paetês brilhantes colados nas mãos e pernas. Conforme caminhavam, uma chuva de brilhos se desprendia deles. "A coisa que eu mais vi foram estrelas cadentes", conta Christiane. "Cansei de fazer pedidos", revela. Uma amiga, que surge dentre as pessoas, atalha: "Haja imaginação, hein, Chris." As duas riem.
O chão estava todo brilhante. Longe da sala de desfile, pelo prédio da Bienal adentro, ainda era possível ver paetês.
Show | "Não acho que os desfiles do Ronaldo sejam teatrais", começa Christiane. "O que eu acho é que ele tem elementos cênicos muito fortes. Vindos mais da performance do que do teatro." Esse desfile foi menos elaborado que o anterior, sobre Pina Bausch, não? "Foram diferentes. O tema Pina Bausch pedia algo de outra maneira. Esse foi mais leve."
Mesmo assim, teve elementos marcantes. "Houve peças com bordados únicos", aponta. O estilista foi até a cidade de Passira, em Pernambuco, para trabalhar com bordadeiras das mais tradicionais. Deixou-as livres para bordarem o que quisessem para o desfile. O resultado foram lindas flores vermelhas com frases em letra cursiva bordadas ao fundo.
"Eu acho muito chato quando o desfile não tem algo que emocione", avalia Christiane. "Ainda mais hoje, na época da internet. Você não vai para o desfile para ver tendência, para ver como se combina roupa. Você vê um desfile para se emocionar."
Christiane adorou os tons de azul, os bordados (descritos como 'singulares') e o salto em forma de roda.
Precisamos nos despedir logo. Christiane estava com pressa porque sua filha, de 7 anos, estava com um probleminha de saúde. Nem pôde se despedir direito do amigo (o backstage ficou lotado).
Passarela | Curiosamente, minutos antes, o desfile fez referência ao evento que Christiane organiza, o Ziguezague (que tem esse nome por transitar de uma área para a outra). Os modelos caminhavam até o fim da passarela e, na hora de retornar, andavam em ziguezague, contornando as flores de azulejos. A trilha tinha samba, baião e forró, com referências ao Xote das Meninas ("Ela só quer, só pensa em namorar.") no violino, e Asa Branca em uma gaita de fole (!).
No fim, todos os modelos entraram em fila, e enquanto andavam, fizeram um caracol, como se dançassem quadrilha na passarela, com as flores gigantes iluminadas por luz negra. O estilista Ronaldo Fraga surgiu correndo e percorreu o espaço, como se comemorasse um gol.
Gol de Ronaldo.
http://blogs.estadao.com.br/moda/2010/06/14/desfile-e-para-a-gente-se-emocionar/
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